Especialistas do 15º SBSBL destacam que
controle da CCS, prevenção da mastite e eficiência dos equipamentos exigem
gestão integrada dentro da propriedade
A qualidade do leite depende de uma combinação de fatores
que começa na interpretação correta dos dados do rebanho e chega à eficiência
do equipamento de ordenha. Essa foi a linha que uniu duas palestras do Painel
Gestão e Qualidade do Leite, nesta quarta-feira (7), durante o 15º
Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), promovido pelo
Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), em Chapecó. O
médico-veterinário português Luis Pinho apresentou a palestra “Gestão
da CCS em sistemas leiteiros: pontos críticos e estratégias de melhoria”,
enquanto o zootecnista Gian Nascimento abordou “Performance do
equipamento de ordenha: menos mastite, mais produtividade”. As duas
exposições mostraram, por ângulos complementares, como reduzir mastite,
controlar a contagem de células somáticas (CCS) e elevar a produtividade.
Pinho, doutor em Ciências Veterinárias pela Universidade do
Porto e especialista em saúde do úbere, defendeu uma metodologia que parte da
análise dos dados para identificar a origem das infecções, definir prioridades
e acompanhar os resultados. “Em vez de fazermos uma consultoria baseada em
palpites, precisamos de uma fundamentação baseada em dados, que permita tomar
ações mais corretas, mais rápidas e mais eficazes”, afirmou.
Um dos principais alertas foi para a mastite subclínica.
Sem sinais aparentes, ela pode reduzir a produção e permanecer despercebida por
longos períodos. “As células somáticas são talvez o prejuízo silencioso
que mais ignoramos nas fazendas. Muitas vezes trabalhamos nas mastites
clínicas, nos problemas que vemos, mas não trabalhamos nos problemas
subclínicos”, destacou.
Além da perda produtiva, a CCS elevada pode afetar a
remuneração do leite, ampliar despesas com tratamentos e descarte e comprometer
o desempenho reprodutivo. Por isso, Pinho recomenda acompanhar a evolução dos
animais para identificar novas infecções, casos crônicos, vacas curadas e
animais saudáveis.
Outro ponto central é distinguir se a origem predominante
das infecções é contagiosa ou ambiental. Nos quadros contagiosos, a
atenção recai principalmente sobre rotina de ordenha e manejo dos animais
infectados. Quando a origem é ambiental, alojamento, cama, higiene, ventilação
e período de transição ganham maior peso.
Prevenção integrada
A estratégia apresentada pelo veterinário se apoia em
quatro pilares: alojamento, rotina de ordenha, máquina de ordenha e sistema
imune. Segundo ele, uma falha relevante em qualquer dessas áreas pode
comprometer o resultado das demais. A prevenção, porém, precisa caminhar junto
com a gestão das vacas já infectadas. Pinho ressaltou que nem todo animal deve
receber o mesmo tratamento. Agente causador, fase produtiva, histórico e
possibilidade de cura devem orientar a decisão entre tratar, acompanhar,
antecipar a secagem ou descartar.
Essa seleção também contribui para o uso racional de
antimicrobianos. “Tratar mais” não significa necessariamente obter melhores
resultados. Para o especialista, diagnóstico e prevenção reduzem tratamentos
desnecessários e permitem concentrar recursos nos casos com maior possibilidade
de resposta.
Produtividade
No cenário internacional, Pinho considera 200 mil
células por mililitro uma referência padrão para os rebanhos e afirma que
trabalhar abaixo de 150 mil pode ampliar produtividade e qualidade. O desafio,
porém, cresce à medida que os índices já estão mais baixos.
“Passar de 200 mil para 150 mil é muito mais difícil do que
passar de 400 mil para 200 mil. Economicamente, pode até não ser viável se não
houver bonificação por parte da indústria”, explicou. Para ele, incentivos
econômicos podem ser mais efetivos que a simples imposição de limites legais.
Pinho também avalia que o Brasil reúne condições para
ampliar sua participação no mercado internacional de lácteos nos próximos anos.
Segundo ele, restrições ambientais, legislativas e de mão de obra limitam a
expansão da produção europeia, enquanto o Brasil ainda apresenta espaço para
crescimento. Esse avanço, no entanto, dependerá de maior produtividade
associada a padrões cada vez mais exigentes de qualidade. Para o especialista,
o caminho passa menos por uma solução isolada e mais por disciplina de gestão: medir,
identificar a causa, corrigir e conferir se a mudança produziu
resultado.
Equipamento também pesa no resultado
Se Pinho destacou a necessidade de localizar a origem do
problema, o técnico em Agricultura e Zootecnia pelo Instituto Federal do Sul de
Minas Gerais, Gian Nascimento, mostrou que parte da resposta está na
própria sala de ordenha. Para ele, o avanço da produtividade dos rebanhos
brasileiros exige equipamentos capazes de acompanhar vacas com maior produção e
maior velocidade de fluxo de leite.
Na palestra “Performance do equipamento de ordenha:
menos mastite, mais produtividade”, Nascimento apontou três fundamentos:
vacas bem estimuladas por uma rotina adequada, vácuo suficiente e estável e
pulsação compatível com o fluxo dos animais. Segundo ele, nem sempre é
necessário trocar todo o sistema de ordenha; ajustes técnicos, manutenção e
substituição de componentes podem produzir ganhos importantes.
A falta de manutenção preventiva foi citada como um dos
principais problemas encontrados no campo. Dependendo do fabricante, as
revisões podem ser recomendadas a cada 750 ou 1.000 horas de operação.
Equipamentos desajustados aumentam intercorrências, desgastam as equipes e
podem contribuir para novos casos de mastite.
Dados apresentados por Nascimento indicam que o equipamento
pode estar relacionado a até 20% das novas infecções intramamárias. Em
uma simulação com 100 vacas em lactação, duas ordenhas diárias e 30% de
deslizamento de teteiras, a estimativa foi de cerca de nove novas infecções em
um ano.
Prevenção com retorno
A palestra também colocou a manutenção sob a ótica
econômica. Segundo os dados apresentados, a manutenção preventiva da
ordenhadeira pode proporcionar retorno estimado entre três e dez vezes o
valor investido. Em uma propriedade com 100 vacas em lactação e produção
média de 35 litros por vaca ao dia, a simulação mostrou que um investimento
equivalente a 2,5% do custo de produção representaria aproximadamente R$
0,06 por litro.
Nascimento resumiu a meta da ordenha em três conceitos:
retirar o leite de forma rápida, completa e suave, sem comprometer a
saúde dos tetos. Para isso, entram em cena estímulo adequado, tetos limpos e
secos, estabilidade do vácuo, proteção pós-ordenha e monitoramento de
indicadores como fluxo de leite, tempo de ordenha e ocorrência de
deslizamentos.
As duas palestras convergiram em um ponto: produtividade e
qualidade não dependem de uma única correção. O resultado nasce da leitura dos
dados, da prevenção, da manutenção e da capacidade de rever decisões sempre que
os indicadores mostrarem que o caminho precisa ser ajustado. “Quem entende
esses dados produz melhor, perde menos e antecipa problemas”, sintetizou
Nascimento.