A gestão sanitária e o uso racional de antimicrobianos abriram a programação do 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó. Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), o pré-simpósio Gestão de Programas Sanitários na Suinocultura – Da Prevenção ao Tratamento: Otimizando o Uso de Antimicrobianos ocorreu na manhã desta terça-feira (11), e reuniu quatro especialistas para discutir fundamentos terapêuticos, diagnóstico, construção de protocolos, farmacoeconomia e monitoramento dos tratamentos.
Na abertura da programação, a presidente
do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, chamou a atenção
para a necessidade de compreender a sanidade de maneira estratégica e considerar
que a discussão vai além da definição de protocolos. “Estamos falando de decisão, prevenção, diagnóstico, monitoramento e
responsabilidade. O uso racional de antimicrobianos é um compromisso que
ultrapassa os limites da granja. Ele está diretamente relacionado à
sustentabilidade da produção, à saúde dos animais, à segurança dos alimentos e
ao futuro da nossa atividade”, ressaltou.
PROGRAMAS
SANITÁRIOS
O médico-veterinário Dr. Everson Zotti apresentou o módulo A
Base de Qualquer Programa, propondo uma revisão dos conhecimentos que devem
anteceder a definição de um tratamento antimicrobiano. A apresentação percorreu
conceitos relacionados às bactérias Gram-positivas e Gram-negativas,
antimicrobianos bactericidas e bacteriostáticos, imunidade, farmacocinética,
farmacodinâmica, efeito pós-antibiótico, interações entre medicamentos e
aspectos relacionados à administração oral.
Dr. Zotti salientou que a
antibioticoterapia permanece como um tema estratégico para a suinocultura e
exige conhecimento técnico antes da tomada de decisão no campo. Entre os pontos
apresentados, destacou que, antes da prescrição de qualquer antimicrobiano, é
necessário confirmar o diagnóstico e o agente envolvido, avaliar a presença de
processo inflamatório ou febre e considerar a condição imunológica do animal.
A importância do tema também foi
contextualizada a partir das crescentes exigências internacionais relacionadas
ao uso de antimicrobianos. Dr. Zotti apresentou como exemplo as determinações
da União Europeia para a cadeia produtiva brasileira, sublinhou que os
questionamentos recentes possuem caráter regulatório e documental, relacionados
às garantias oficiais, fiscalização e certificação do uso dessas substâncias, e
não à detecção de resíduos de antibióticos na carne brasileira. Para ele, o
cenário demonstra que a gestão dos antimicrobianos ultrapassa a rotina
sanitária das granjas e passa a ter implicações também para o posicionamento do
País no comércio internacional.
Outro ponto abordado foi a associação
entre diferentes antimicrobianos. Zotti explicou que a combinação pode resultar
em sinergismo, antagonismo ou indiferença, dependendo do mecanismo de
ação, do patógeno e da concentração do medicamento no local da infecção. Por
isso, as associações devem ter um propósito definido, como ampliar o espectro
de ação, buscar sinergismo ou reduzir o risco de resistência, sem substituir
ferramentas fundamentais como o diagnóstico e o antibiograma.
Na sequência, médico veterinário Dr. Edison
Magalhães, professor assistente do Departamento de Ciência Animal da Iowa
State University, conduziu o módulo Inteligência Sanitária e Diagnóstico,
direcionando a discussão para a construção de sistemas de monitoramento capazes
de transformar informações sanitárias em decisões práticas. Magalhães partiu de uma questão
central: não só identificar se determinado agente está presente, é necessário
compreender sua dinâmica dentro do sistema produtivo, seu impacto e definir
previamente quais medidas serão adotadas diante de cada resultado.
O Dr. Magalhães utilizou como principal
referência a experiência dos Estados Unidos com a Síndrome Reprodutiva e Respiratória dos Suínos (PRRS).
Segundo ele, a complexidade da doença, marcada pela persistência do vírus,
elevada diversidade genética, circulação em baixa prevalência e alto impacto
econômico, obrigou a suinocultura norte-americana a desenvolver uma estrutura
robusta de monitoramento e vigilância. Embora o Brasil não tenha PRRS, o
especialista realçou que o conhecimento e as ferramentas construídos a partir
desse desafio podem ser transferidos para agentes presentes na produção
brasileira.
“Toda
essa cultura é criada a partir do diagnóstico e de entender a circulação do
agente dentro do sistema. É isso que queremos trazer para o Brasil e discutir
como esse conceito pode ser aplicado à suinocultura brasileira”,
destacou. Para Magalhães, essa estrutura permite avançar de coletas pontuais
para uma visão longitudinal da sanidade, acompanhando os agentes ao longo do
tempo e gerando informações sobre sua atividade, impacto econômico e
necessidade de intervenção.
Para aproximar essa abordagem da
realidade brasileira, Magalhães apresentou a ileíte como exemplo
de enfermidade na qual o momento da coleta pode ser determinante. Dados
discutidos durante a palestra demonstraram que os suínos podem estar infectados
e apresentar perdas produtivas mesmo sem sinais clínicos evidentes. Com o
avanço do tempo, a excreção do agente pode diminuir até não ser mais detectada,
embora o prejuízo produtivo já tenha ocorrido. Dessa forma, explicou, o monitoramento
precisa acompanhar a janela biológica da doença, em vez de ocorrer somente como
resposta ao aparecimento de sinais clínicos.
O terceiro módulo foi conduzido pelo
médico-veterinário Dr. Augusto Heck, que abordou a construção de
programas sanitários factíveis e fez uma análise crítica sobre a adoção de
protocolos de amplo espectro. O palestrante explicou que a percepção de que uma
maior cobertura aumenta as chances de sucesso pode ser enganosa. Embora os
animais possam apresentar uma resposta inicial, o tratamento sem diagnóstico
pode ocultar problemas subjacentes e fazer com que os sistemas produtivos
permaneçam dependentes de protocolos que nem sempre têm sua eficácia
devidamente avaliada.
Entre os principais riscos, Heck
destacou a pressão de seleção para
resistência aos antimicrobianos e o desequilíbrio da microbiota. Ao
atingir não somente o patógeno de interesse, mas também outros microrganismos,
o amplo espectro pode favorecer a seleção e a transferência de genes de
resistência. Também pode eliminar bactérias benéficas da microbiota intestinal,
contribuindo para disbiose, problemas pós-tratamento e reflexos sobre
indicadores zootécnicos, como conversão alimentar e ganho de peso.
Heck também chamou a atenção para erros
relacionados à dose, duração e via de
administração. Segundo ele, tanto a subdosagem quanto o uso inadequado
podem favorecer a seleção de bactérias resistentes. Ao mesmo tempo, doses
excessivamente elevadas e utilizadas por períodos prolongados também podem
trazer consequências, incluindo toxicidade, comprometimento da resposta imune e
desequilíbrio da microbiota. Por isso, ressaltou que o uso responsável depende
do conhecimento das características de cada princípio ativo e da estratégia
terapêutica adotada.
Os impactos, conforme apresentou,
ultrapassam a granja. O uso imprudente pode resultar em retratamentos, aumento da mortalidade e dos descartes, perda de
desempenho e elevação do custo de produção, além de trazer implicações
para a saúde pública, o meio ambiente e o acesso aos mercados. Heck lembrou que
países como China, Japão e integrantes da União Europeia já demandam
rastreabilidade no uso dos antimicrobianos e que essa responsabilidade envolve
empresas, produtores e médicos-veterinários.
Como alternativa, o especialista
apresentou cinco pilares para o uso
responsável dos antimicrobianos: diagnóstico preciso, escolha criteriosa,
prevenção, monitoramento e educação continuada. O ponto de partida,
segundo ele, deve ser a identificação correta do problema, com ferramentas como
coleta de material, cultura e isolamento, antibiograma e, preferencialmente,
determinação da Concentração Inibitória Mínima (MIC), além de recursos
complementares como histopatologia e necropsia. “Sem isso, estamos, na verdade,
dando um chute técnico qualificado”, observou ao defender decisões respaldadas
por evidências.
Encerrando a programação da manhã, o
gerente corporativo de Suinocultura da Aurora Coop, Luiz Carlos Giongo,
ministrou o módulo Farmacoeconomia e Monitoramento, com uma abordagem
voltada à relação entre sanidade, desempenho produtivo e resultado econômico. O
palestrante demonstrou que avaliar um programa sanitário exige ir além do preço
dos medicamentos, acompanhando os resultados dos tratamentos e mensurando seus
impactos sobre o desempenho dos animais e a rentabilidade da produção.
Giongo destacou que os produtos
veterinários representam uma parcela pequena do valor total da atividade. Dados
apresentados durante a palestra indicaram participação próxima de 5% no
custo de produção, enquanto a alimentação concentra a maior parcela dos
gastos. Nesse contexto, chamou a atenção para a necessidade de mudar a lógica
de análise: em vez de perguntar somente qual medicamento é mais barato ou como
reduzir o custo da farmácia, é necessário avaliar os impactos provocados pela
doença e verificar se existem informações suficientes para sustentar a tomada
de decisão.
“Precisamos
acompanhar o resultado dos tratamentos ou dos produtos veterinários utilizados
na criação, se eles realmente estão entregando o resultado desejado e
proporcionando a condição de equilíbrio sanitário que precisamos”,
explicou. Segundo Giongo, essa avaliação completa deve considerar não apenas o
medicamento e sua aplicação, mas também possíveis retratamentos, mortalidade,
descartes e refugos, redução do ganho de peso, atraso no abate, piora na
conversão alimentar e condenações no frigorífico.
Para demonstrar a diferença entre preço
de compra e custo efetivo de um tratamento, o palestrante apresentou
comparativos entre medicamentos e exemplos reais de campo. “O produto mais
barato na compra nem sempre é aquele que apresenta o melhor resultado final”,
ressaltou. A escolha, segundo ele, precisa considerar o agente envolvido, a
estratégia terapêutica, a via de administração, a dose, a necessidade efetiva
do tratamento e informações provenientes do diagnóstico e do antibiograma.
Um dos casos apresentados envolveu um
surto de pleuropneumonia suína (Actinobacillus pleuropneumoniae - APP)
em uma unidade de produção, no qual foram comparados seis meses de ocorrência
da doença com o período anterior. Ao incorporar perdas de desempenho,
mortalidade, condenações ao abate, medicamentos, vacinação e mão de obra, os
impactos chegaram a aproximadamente R$ 115,4 mil em um lote de 2.300 animais,
ressaltando como o custo de uma enfermidade ultrapassa significativamente
aquilo que aparece na conta da farmácia.
Para Giongo, entretanto, o melhor
resultado começa antes da necessidade de recorrer a tratamentos. Biosseguridade,
manejo adequado, vacinação, instalações, ambiência, nutrição e equilíbrio
sanitário contribuem diretamente para reduzir a ocorrência de enfermidades
e, consequentemente, a necessidade de produtos curativos. Quando o tratamento é
necessário, destacou, ele precisa ser realizado corretamente. “Tem que usar o
produto certo, na hora certa e na dose certa. Se utilizarmos uma subdose,
tratarmos de forma inadequada ou escolhermos o produto errado, podemos precisar
tratar novamente, aumentando o desperdício, o custo e até o risco de
resistência”, afirmou.
Ao concluir, o palestrante comentou que reduzir o uso de antibióticos é resultado da
construção de equilíbrio no sistema produtivo, e não da retirada dos
medicamentos. Diagnóstico adequado, prevenção, monitoramento e escolha
criteriosa das intervenções permitem conciliar saúde animal, eficiência
produtiva e resultado econômico. “O
melhor tratamento não é o mais barato na compra do produto. É aquele que
entrega o maior retorno sanitário, produtivo e econômico, com uso responsável e
monitorado”, finalizou.
PROGRAMAÇÃO
GERAL
• 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura
• 17ª Brasil Sul Pig Fair
TERÇA-FEIRA
(11/08/2026)
14h50
às 15h20 – Fluxo Produtivo: Da Matriz ao Abate (Visão da Nutrição)
Palestrante:
Cesar Augusto Pospissil Garbossa
15h25
às 15h55 – Mesa Redonda
16h00
às 16h30 – Coffee break
16h30
às 17h10 – O Futuro da Proteína Suína
Palestrante:
Luis Rua
17h10
às 17h30 – Perguntas
17h30
– Solenidade de Abertura Oficial do SBSS
18h30:
Palestra de Abertura: A Nova Geopolítica dos Alimentos: Impactos nas proteínas
animais e na suinocultura.
Palestrante:
Marcos Jank
20h00:
Coquetel de Abertura na PIG FAIR
QUARTA-FEIRA
(12/08/2026)
Painel
Biovigilância - Gestão Integrada
08h00
às 8h40: Biomanagement e Defesa Sanitária: Estratégias de Mitigação
Palestrante:
Jordi Baliellas Capdevila
08h45
às 09h15: Vigilância e controle de Vetores: Roedores e Insetos como
disseminadores de Patógenos
Palestrante:
Alisson Mezzalira
09h20
as 09h50 - Mesa Redonda
09h50
às 10h20: Coffee Break
Painel
Alimentação - Desafios e Oportunidades
10h20
às 10h50 – Eixo Imuno-Nutricional: Programação Metabólica da Matriz ao leitão
Palestrante:
Jose Soto
10h55
às 11h25 – Imunonutrição: Estratégias Não Farmacológicas para a Resiliência
Sanitária
Palestrante:
Andres Gomez
11h30
às 12h00: Vigilância Analítica e Gestão de Micotoxinas: Estratégias para
Blindar a Performance e a Sanidade
Palestrante:
Ricardo Rauber
12h00
às 12h30 – Mesa Redonda
12:30
às 14h00 – Intervalo para almoço
12h30
às 13h30 – Eventos Paralelos
Painel
Sanidade - Saúde Respiratória
14h00
às 15h00 – Erradicação de M. hyopneumoniae: Protocolos de Exposição,
Estabilização e Eliminação
Palestrantes:
Gustavo Silva e Paul Yeske
15h00
às 15:30 – Sincronia Sanitária: O Impacto da Aclimatização de Leitoas na
estabilidade do plantel
Palestrantes:
Luciano Brandalise
15h30
às 16h00: Coffee Break
16h00
às 16h40 – Influenza em Foco: Impactos e alternativas de controle
Palestrante:
Ricardo Yuti Nagae
16h45
às 17h25 – Ambiência 4.0: Conectividade, Bem-Estar e Eficiência Energética na
Suinocultura
Palestrante:
Lederson Trindade de Lima
17h35
às 18h00 – Mesa Redonda
18h30
às 19h30 – Evento Paralelo Exclusivo (MSD)
20h00: Happy Hour na PIG FAIR
QUINTA-FEIRA
(13/08/2026)
08h30
às 09h10 – Alimentação de Precisão: Sensores, Conectividade e Eficiência
Nutricional
Palestrante:
Bruno Silva
09h10
às 09h30 – Perguntas
9h30
às 10h00 – Coffee Break
Painel
Pessoas - Gestão e Performance
10h00
às 10h30 – Percepção vs. Realidade: Comunicação Estratégica para Mitigar Erros
e Maximizar Resultados
Palestrante:
Creici Lamonato
10h35
às 11h05 – Capital Humano e Sucessão: Preparando a Próxima Geração e as Equipes
de Alta Performance
Palestrante:
Rogério Facin
11h10
às 11h40 – O Apagão de Mão de Obra e o Desafio da Qualificação
Palestrante:
Anderson Queirós
11h45
às 12h15 – Mesa Redonda
12h15
– Sorteio de brindes e encerramento