A escassez de mão de obra e os desafios relacionados à gestão de pessoas na cadeia produtiva pautaram o debate no primeiro painel da programação científica do 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), organizado pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet). O tema “Capital humano em crise: o futuro da mão de obra na avicultura” foi debatido pelos especialistas Delair Bolis, Joanita Maestri Karoleski e Vilto Meurer, com coordenação de Luciana Dalmagro, na tarde desta terça-feira (7), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC).
Os palestrantes abordaram os
impactos da carência de profissionais no campo e na indústria, destacando a
necessidade de repensar estratégias de atração, formação e retenção de talentos
na avicultura. O debate também trouxe reflexões sobre as transformações
tecnológicas e a necessidade de integração entre gestão de pessoas e inovação
como caminho para manter a competitividade do setor.
TRANSFORMAÇÕES
A executiva Joanita Maestri Karoleski, conselheira, mentora e ex-CEO da Seara,
iniciou o Painel Gestão de Pessoas com uma análise estratégica sobre as
transformações estruturais que impactam a disponibilidade e o perfil da mão de
obra na avicultura e no agronegócio. Segundo ela, o cenário atual vai além da
escassez de profissionais. “Nós estamos vivendo uma mudança estrutural. Não é
um fenômeno pontual. Temos o envelhecimento da população, a queda nas taxas de
natalidade e, ao mesmo tempo, uma transformação profunda na forma como as novas
gerações enxergam o trabalho”, destacou.
A palestrante explicou que os
profissionais mais jovens chegam ao mercado com expectativas diferentes,
valorizando propósito, desenvolvimento e flexibilidade. “As novas gerações não
estão apenas buscando emprego, mas sim significado no que fazem. Isso exige
adaptação das empresas e, principalmente, das lideranças”, afirmou.
Nesse contexto, Joanita trouxe uma
provocação central do painel: o problema pode não estar na falta de pessoas,
mas na forma como as organizações estão estruturadas. “Talvez não estejamos
diante de um apagão de mão de obra, mas de um apagão de liderança. As pessoas
não desapareceram, elas estão menos dispostas a trabalhar em ambientes mal
estruturados, com gestão fraca ou sem uma proposta clara de valor”, pontuou.
Ela destacou ainda que um dos
principais desafios está na capacidade de integrar diferentes gerações dentro
das organizações. “Pela primeira vez, temos três ou até quatro gerações
convivendo simultaneamente dentro das mesmas empresas, com expectativas e
formas de trabalhar muito distintas entre si. Isso exige líderes preparados
para lidar com essa complexidade”, explicou.
Outro ponto abordado foi a
necessidade de reposicionar o capital humano como elemento central da
estratégia empresarial. “Ainda vemos empresas que dão mais atenção à compra de
equipamentos do que ao desenvolvimento das pessoas. O capital humano precisa estar
na agenda estratégica, inclusive nos conselhos administrativos, porque é ele
que sustenta o crescimento no longo prazo”, afirmou.
Joanita também apresentou caminhos
para enfrentar o desafio, estruturados em diferentes níveis organizacionais,
desde o conselho até a operação. Segundo ela, o desenvolvimento de lideranças,
especialmente na média gestão, é um dos fatores mais críticos para transformar
a realidade das empresas.
A mentora também deixou uma reflexão
sobre o futuro do trabalho na avicultura. “A pergunta não é mais onde estão as
pessoas. A pergunta é: por que alguém escolheria trabalhar aqui e não em outro
lugar? Quando conseguimos responder isso, começamos a resolver o problema de
forma consistente”, concluiu.
RELACIONAMENTO
EMPRESA X PROFISSIONAIS
Com 39 anos de experiência na
agropecuária e trajetória de longa data na BRF, onde encerrou sua carreira como
diretor de produção agropecuária, Vilto
Meurer, deu sequência ao Painel, demonstrando práticas voltadas à realidade
do campo e da indústria, com foco em estratégias de captação e retenção de
pessoas.
Segundo o palestrante, o
enfrentamento da escassez de mão de obra passa pela forma como as empresas se
relacionam com seus profissionais. “O grande desafio está na captura e retenção
dessas pessoas. Precisamos entender o que as empresas, os gestores e os
próprios profissionais podem fazer para reduzir o turnover e tornar o ambiente de trabalho mais atrativo”, afirmou.
Vilto destacou que, diante da
escassez de mão de obra, o papel da liderança ganha ainda mais relevância
dentro das organizações. Segundo ele, o gestor precisa ir além do conhecimento
técnico e assumir uma atuação estratégica na condução das equipes. De acordo
com o especialista, três pilares sustentam a atuação de um bom gestor:
liderança, conhecimento técnico e método de gestão. “Não basta conhecer o
processo produtivo. É preciso saber liderar pessoas, construir confiança,
mobilizar equipes e estabelecer uma comunicação clara e eficiente”, enfatizou.
Entre os principais atributos da
liderança, Vilto destacou a capacidade de engajar pessoas e gerar senso de
pertencimento. “O profissional precisa sentir que faz parte do resultado,
desenvolver o sentimento de dono e entender a importância do seu trabalho
dentro do sistema produtivo”, explicou.
No campo da motivação, o
especialista ressaltou que o engajamento está diretamente ligado a três fatores
fundamentais: saber, poder e querer. “Para executar bem uma função, o
profissional precisa ter conhecimento, condições adequadas de trabalho e, principalmente,
vontade de fazer. É essa combinação que gera engajamento”, afirmou.
RETENÇÃO
DE TALENTOS
Vilto também chamou atenção para a
importância do propósito como elemento central na retenção de talentos.
“Propósito é o significado do trabalho. Quando a pessoa entende o impacto
daquilo que faz no resultado final, ela se envolve mais e permanece na atividade”,
destacou.
Outro ponto abordado foi a
necessidade de adaptação das estratégias de gestão ao perfil das diferentes
gerações presentes nas empresas. Segundo ele, cada geração possui
comportamentos, expectativas e formas de relacionamento com o trabalho
distintas, o que exige uma liderança mais flexível e preparada para lidar com
essa diversidade.
O palestrante enfatizou que a
capacitação contínua é essencial para o desenvolvimento das equipes. Ele
apresentou práticas como integração estruturada, programas de mentoria,
treinamentos progressivos e trilhas de carreira como ferramentas importantes
para alinhar aprendizado, produtividade e crescimento profissional.
Vilto também reforçou que a formação
de adultos exige metodologia adequada. “O adulto aprende de forma diferente. É
necessário utilizar métodos que conectem teoria e prática”, explicou.
O especialista sintetizou que a
retenção de pessoas está diretamente ligada à combinação entre gestão eficiente
e propósito. “Pessoas motivadas, com clareza de propósito e inseridas em um
modelo de gestão simples e bem estruturado, geram melhores resultados e reduzem
significativamente o turnover”,
concluiu. Vilto também apresentou ferramentas práticas para formação e
desenvolvimento de equipes, destacando metodologias utilizadas na extensão
rural que podem ser aplicadas na agroindústria. “Existem métodos que funcionam
muito bem para capacitação de pessoas, como o método do arco e técnicas de
transferência de tecnologia. São ferramentas que ajudam a desenvolver
profissionais de forma mais eficiente e que podem ser utilizadas dentro das
empresas”, explicou.
Ele reforçou, ainda, que a
combinação entre pessoas, propósito e gestão é determinante para o futuro do
setor. “Pessoas motivadas, com propósito claro e inseridas em um modelo de
gestão eficiente geram melhores resultados. Esse é o caminho para aumentar a
produtividade e reduzir os impactos da escassez de mão de obra”, concluiu.
USO ESTRATÉGICO DA TECNOLOGIA
O médico-veterinário Delair Bolis, presidente da MSD Saúde
Animal no Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, com mais de 25 anos de atuação
na indústria de saúde animal, seguiu o debate salientando que a escassez de mão
de obra é uma realidade estrutural e crescente na avicultura, tanto do ponto de
vista quantitativo quanto qualitativo. De acordo com Bolis, o setor precisa
compreender que esse não é um problema temporário. “A diminuição da mão de obra
é uma realidade que tende a escalar. Não é um problema que vai passar, exige
mudanças estruturais na forma como trabalhamos”, afirmou.
Bolis chamou atenção para a
defasagem dos modelos de trabalho frente às transformações do mercado. “Nós
ainda operamos, muitas vezes, com estruturas que não acompanharam a evolução do
setor. A questão não é só falta de pessoas, mas se o modelo de trabalho ainda é
competitivo e atrativo para elas”, destacou.
Diante desse cenário, o especialista
reforçou que as principais ferramentas de transformação estão no uso
estratégico da tecnologia e no desenvolvimento de lideranças. “O que está sob
nosso controle é como tecnificar os processos e preparar pessoas com maior
capacidade de utilizar essa tecnificação para melhorar sistemas, processos e a
própria liderança”, pontuou.
O palestrante alertou que a
tecnificação precisa ser aplicada com critério. “Não se trata de tecnificar
tudo que é possível, mas sim aquilo que precisa ser modernizado. A tecnologia
precisa estar conectada à estratégia e às pessoas, não apenas à automação
indiscriminada”, explicou.
Outro ponto comentado foi a mudança
no perfil das funções dentro da cadeia produtiva. “Com menos pessoas no campo,
cada profissional passa a ser responsável por mais processos. Não é mais sobre
executar tarefas isoladas, mas sobre entender e gerir o processo como um todo”,
ressaltou.
Bolis também abordou a importância
do fator humano na eficiência operacional. “Quem entende de pessoas melhora
processos. A liderança passa a ter um papel ainda mais decisivo, porque ela
conecta tecnologia, pessoas e resultados. O futuro não será definido pela
disponibilidade de mão de obra, mas pela nossa capacidade de reinventar o
trabalho dentro da avicultura”, concluiu.
PAINEL
A mediação do painel foi conduzida pela
produtora rural, empreendedora e referência em liderança e sustentabilidade no
agronegócio, Luciana Dalmagro, que
contribuiu para integrar diferentes visões sobre o tema. “Foram grandes
ensinamentos, falando de aspectos de liderança, habilidades que as pessoas que
estão iniciando no mercado precisam desenvolver e, para quem está há mais
tempo, os profissionais mostraram a importância do olhar humanizado para os
colaboradores”, acrescentou.
O 26º SBSA segue até quinta-feira
(9), reunindo especialistas nacionais e internacionais para discutir temas
estratégicos da cadeia produtiva. Paralelamente ao Simpósio, ocorre a 17ª
Brasil Sul Poultry Fair, feira que apresenta soluções, tecnologias e inovações
para o setor avícola.
Para acompanhar a palestra e os
demais conteúdos da programação científica é necessária inscrição no evento. O terceiro lote está disponível, com
investimento de R$ 890,00 para profissionais e R$ 500,00 para estudantes. O
acesso à 17ª Brasil Sul Poultry Fair custa R$ 200,00. As
inscrições podem ser realizadas no site:
https://nucleovet.com.br/simposios/avicultura/inscricao.
PROGRAMAÇÃO
GERAL
• 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura
• 17ª Brasil Sul Poultry Fair
DIA 08/04 – QUARTA-FEIRA
Bloco Abatedouro
8h - Velocidade de processamento e qualidade do
abate.
Palestrante: Darwen de Araujo Rosa
(15
minutos de debate)
9h - Comparativo
microbiológico entre países no contexto da ciência da segurança alimentar.
Palestrante: Dianna V. Bourassa
(15 minutos de debate)
10h - Intervalo
Bloco
Nutrição
10h30 - Granulometria
e seu impacto no trato digestivo.
Palestrante: Wilmer Pacheco
(15
minutos de debate)
11h30 - Níveis
de Ca e P nas dietas modernas do frango de corte.
Palestrantes: Roselina Angel
(15
minutos de debate)
12h30 - Intervalo
almoço
Eventos Paralelos
Painel
Manejo
14h00 - Manejo do Frango de Corte Moderno
Palestrantes:
Lucas Schneider
Rodrigo Tedesco Guimarães
16h - Intervalo
Bloco
Conexões que Sustentam o Futuro
16h30 - Do
conhecimento à ação: como transformar orientações em resultados na avicultura.
Palestrante: Kali Simioni e João Nelson Tolfo
(15
minutos de debate)
17h30 - Porque
bem-estar é crucial para a sustentabilidade?
Palestrante: Prof. Celso Funcia Lemme
(15
minutos de debate)
18h30 - Eventos
Paralelos
19h30 - Happy
Hour na 18ª Brasil Sul Poultry Fair
DIA 09/04 – QUINTA-FEIRA
Bloco Sanidade
8h - Tríade
do diagnóstico de Laringotraqueíte infecciosas - enfoque nos diferentes métodos
de diagnóstico das doenças respiratórias
Palestrante: Profa. Renata Assis Casagrande
(15
minutos de debate)
9h - Micotoxinas: a ameaça silenciosa à
saúde intestinal das aves.
Palestrante: Dr. Ricardo Rauber
(15
minutos de debate)
10h - Intervalo
10h30 - Gumboro
em foco: avanços recentes e novas fronteiras no controle da doença.
Palestrante:
Gonzalo Tomás
(15 minutos de debate)
11h30 - Influenza
aviária – plano de contingência em caso real.
Palestrante: Taís Barnasque
(15
minutos de debate)
Sorteios de brindes.Legendas: